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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)




Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970... 

Foto do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas (local, data, etc.)... A personagem central, vestida de branco e "gorro" preto, que parece estar a presidir a uma cerimónia religiosa islâmica, é, seguramente, o Cherno Rachide que eu conheci em Bambadinca nessa altura... 

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fieis...  

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973. Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) organizou uma coluna de transporte  para os seus fiéis poderem ir prestar-lhe a última homenagem em Aldeia Formosa.

  No meu tempo, o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar.

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 


Cherno Baldé: Nasceu em Fajonquito, setor de Contuboel, região de Bafatá, zona leste  no início dos anos 60. Fula e guineense, aprendeu a ler e a escrever com a NT. Tem formação superior universitária (Kiev e Lisboa). É gestor de projetos, consultor independente. Vive em Bissau. Muçulmano, é casado com uma nalu, cristã. tem 4 filhos. É nosso colaborador permanente para as questões etno-linguísticas.

1. Comentário do Cherno Rachide ao poste P27559 (*)









Antes de tudo, quero saudar o ex-Furriel e Professor Manuel Amaro e expressar a minha gratidao e respeito pelo trabalho realizado, em tempos, ao servico das criançaas da Guiné-Bissau, colmatando assim um vazio e um atraso de muitos séculos, relativamente à educação e formação da nossa juventude rumo à modernidade. 

É importante salientar a grande surpresa que o partido "libertador' teve, logo a seguir à independência, da avalanche de jovens que, literalmente, invadiram os centros urbanos vindos das tabancas (antigos aquartelamentos) para continuação dos estudos, não era nada do que estariam à espera, pois é preciso desmistificar que a guerra do PAIGC  não foi para libertar ninguém, mas de substituir os agentes da administração colonial, aproveitar-se do espólio colonial e continuar a subjugar o resto da população, sobretudo, rural, pobre e não alfabetizada.

Na sequência da visita que fez ao Cherno Rachide a fim de esclarecer um mal entendido, o Manuel Amaro escreveu: 

"Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento".

Não sei, ao certo, o que quereria dizer com estas palavras de desabafo, mas gostaria de esclarecer que, de lado a lado, entre o regime colonial português (não confundir com o exército português no terreno constituído principalmente de milicianos mobilizados à força) e a elite muçulmana do território, de maioria Sunita, predominava um relacionamento cordial e de mútuo respeito e colaboração, mas ao mesmo tempo, de mútua desconfiança no campo religioso, pois os dois lados actuavam em campos diametralmente opostos e de guerra fria permanente, mesmo se, no fundo, as diferenças não fossem muito grandes, tendo em conta as suas origens e princípios dogmáticos.

Eu, pessoalmente, pertencente à comunidade muçulmana por nascença, só fui admitido a continuar na escola portuguesa porque um Marabu mandinga (chefe religioso), amigo do meu pai, garantiu que não havia qualquer incompatibilidade entre a confissão muçulmana (religião) e a escola portuguesa (conhecimento técnico-profissional) desde que não incluisse a doutrinação (catequese) cristã.

Tambem, é preciso dizer, sem ambiguidades que, a política e a preferência portuguesa nas suas colónias era claramente a favor da doutrinação religiosa e a assimilação social e cultural, mas ainda assim era preciso ter os meios, a capacidade e a disponibilidade para o realizar no terreno.

Quanto a uma eventual ligação e "duplo jogo" com a guerrilha, eu não acredito de todo, tendo em conta a forte ligação com o poder colonial através dos seus representantes na província que era pública e conhecida de todos,  especialmente com o gen Spinola, mas também, mesmo que houvesse eventuais contatos com o PAIGC, seria um sinal da sua importância enquanto chefe religioso, cuja influência ia para além das fronteiras da Guiné (dita portuguesa). 

O reconhecimento da sua importância e inteligência intelectual dão-lhe a liberdade, mesmo que condicionada, de viver no seu tempo e espaço, feito de mudanças radicais, de violência e de guerras permanentes e a sua, relativamente, curta longevidade reflecte o fardo social e a enorme pressão psicológica a que estavam submetidos, actuando entre duas frentes irreconciliáveis e um misto de guerra política e religiosa. 

De certa forma, a realidade política da Guiné ainda carrega essas dualidades e ambivalências que não foram resolvidas com a independência, pelo contrário, agudizaram-se no meio da proliferação da miséria e do obscurantismo em que o país mergulhou,  fruto da má gestão e incúria dos sucessivos governos responsáveis pela governação e gestão do país. (**)

Cherno AB

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025 às 11:09:42 WET 

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


2. Comentário do editor LG:

O Cherno Rachide era imã ou califa ? Qual a distinção ?

(i) Califa (do árabe "khalīfa", sucessor): 

Originalmente, refere-se ao líder político e religioso da comunidade muçulmana ("ummah"), após a morte do Profeta Maomé.  Tradicionalmente, o califa é considerado o "sucessor do profeta Maomé", não como profeta, mas  na liderança  da comunidade.

A sua função principal é governar, aplicar a lei islâmica ("sharia") e proteger e expandir o Islão. É uma figura mais associada ao Islão sunita.

O califado teve grande importância histórica (Omíadas, Abássidas, Otomanos), mas não existe oficialmente hoje (vd. No passado Califa de Bagdade, Califa de Córdova). 

Em contextos locais, como na África Ocidental, o termo pode ser usado para designar um líder espiritual ou político de uma comunidade islâmica, muitas vezes com autoridade sobre uma região ou grupo étnico.

Na Guiné-Bissau, califa era um título atribuído a líderes religiosos e políticos influentes, como Cherno Rachid Jaló, que exercia autoridade sobre uma vasta área e população (Quebo-Forreá, incluindo parte da Guiné-Conacri e Senegal).


(ii) Imã (do árabe "imām", líder, guia): 

É o líder religioso que conduz a oração na mesquita e pode também ser uma referência espiritual para a comunidade. O imã não tem necessariamente poder político, embora em alguns contextos possa exercer influência social e moral.

No caso de Cherno Rachid Jaló, ele era chamado de califa porque era um líder espiritual e político, com autoridade sobre uma região e população, não apenas um guia religioso. O título reflete a sua influência e poder, que iam além do domínio religioso, abrangendo também a dimensão social e política.

No Islão xiita, o imã tem um significado muito mais profundo: é um líder religioso supremo, considerado escolhido por Deus; possui autoridade espiritual infalível (segundo a doutrina xiita); os xiitas reconhecem uma linha específica de imãs, descendentes de Ali (genro de Maomé).

Sobre as correntes do Islão que predominam na Guiné-Bissau / África Ocidental, vd. poste P23362 (***), também da autoria do Cherno Badé.

Acrescente-se ainda  que  no islão sunita da Guiné-Bissau, há 2 comfrarias:  (i) a confraria quadriyya,  seguido pela maior parte dos mandingas e biafadas  da Guiné,  tem o seu centro de influência em Jabicunda, a sul de Contuboel, região de Bafatá;  (ii) a outra é a confraria tidjania,. seguida pela maior parte dos fulas.

As confrarias sunitas são, com mais propriedade, chamadas  sufis ("ṭuruq", singular "ṭarīqa"). Trata-se de ordens religiosas místicas que existem dentro do Islão sunita (embora também haja sufis xiitas, em menor número).

São comunidades espirituais organizadas em torno de um mestre religioso ("sheikh" ou "shaykh"), cujo objetivo principal é a aproximação espiritual a Deus (Alá): a purificação interior; o exercício da piedade, disciplina e devoção.

O sufismo representa a dimensão mística do Islão, focada na experiência interior da fé, mais do que apenas no cumprimento formal da lei religiosa.

Cada confraria segue um caminho espiritual específico ("ṭarīqa"); a relação entre mestre e discípulo é central; praticam o "dhikr" (recordação de Deus), que pode incluir: repetição de nomes divinos; orações rítmicas; canto, música ou movimentos corporais (dependendo da ordem); valorizam a ascese, a humildade e o amor divino.

A confraria Qadiriyya é uma das mais importantes e antigas, difundida no Médio Oriente e África.

_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27559: Não-estórias de guerra (6): O Cherno Rachide que eu conheci (Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Fomosa e Nhala, 1969/71)


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

(***) Vd. poste de 18 de junho de 2022 > Guiné 61/74 - P23362: (Ex)citaçõs (410): O islão na Guiné-Bissau, país laico e tolerante: correntes moderadas e radicais (Cherno Baldé, Bissau)

(...) Se nos anos 60/70 os mais cotados representantes eram, em grande maioria, da etnia fula (ver Futa-Fula) que professavam a corrente Sunita da Tidjania, bem moderada, com ligações às correntes religiosas do Magreb e do Egipto (escolas islâmicas de Fez e do Cairo, nomeadamente Universidade de Al-Qarawiyyin e Al-Azhar) que formavam os nossos estudantes em matéria islâmica, actualmente a etnia mandinga/biafada apoderou-se da iniciativa do proselitismo religioso com ligações ao movimento Salafista - Wahabita do Médio Oriente (países do Golfo liderados por Qatar e Arábia Saudita) beneficiando de importantes fundos (doações) para esse efeito.

Durante os últimos anos houve uma espécie de braço de ferro das duas correntes pela liderança das comunidades em Bissau e nas principais cidades do interior, com destaque no Norte e Leste do país, mas, pelos vistos a nova corrente está a levar a melhor e com isso, também, a presença cada vez maior de jovens discípulos desta corrente é Salafista-Wahabita nas mesquitas também por eles construidas tanto nos subúrbios da capital como no resto do país.

Apesar de tudo, ainda não passa de um fenómeno novo e pouco expressivo, tendo em conta a resistência das correntes mais antigas e tradicionais (Tidjania e Quadryya) na região Oeste africana. (...).

A confraria Xiita (com ligações ao Irão) não tem muitos adeptos na nossa subregião (África do Oeste) e mesmo a nivel do continente é pouco expressivo. Mas, eu não falei desta corrente religiosa e sim da competição dentro da corrente Sunita, onde existem orientações moderadas (mais antigas) e outras mais radicais (Salafistas / Wahabitas) originárias do Médio Oriente cuja influência é cada vez mais sentida nas comunidades muçulmanas do país e da subregião. (...)










segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27559: Não-estórias de guerra (6): O Cherno Rachide que eu conheci (Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Fomosa e Nhala, 1969/71)


Guiné > Região de Tombali >  Aldeia Formosa (hoje, Quebo) > Janeiro de 1973 > Tabaski ou festa do carneiro > O Cherno Rachide, acompanhado de um dos seus filhos (possivelmente o seu futuro sucessor, Aliu),  presidiu à cerimónia, ele próprio degolou (ou ajudou a degolar) o carneiro. Viria a morrer nesse ano, em setembro. 

Em segundo plano,   o cap mil (e nosso grão-tabanqueiro) Vasco da Gama, cmdt da CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" ( Cumbijã, 1972/74). 

Foto (e legenda): © Vasco da Gama (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > Janeiro de 1974 > Da esquerda para a direita, (i) Califa, o homem mais velho de Aldeia Formosa com 83 anos de idade; (ii)  Aliú, chefe da antiga Tabanca do Cumbijã; (iii)  cap mil cav, Vasco da Gama (cmdt da CCAV 8351, Cumbijá, 1972/74); (iv) Sekúna (filho do Cherno Rachide,  falecido, em setembro de 1973, e seu herdeiro como imã) e  (v) o Cherno da República do Senegal (irmão do falecido Cherno Rachide).


Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Janeiro de 1973 >  A população,  na sua maioria constituída por "homens grandes",  segue a leitura do alcorão pelo Cherno Rachide. Os fatos que envergam não os usam habitualmente mas só em dias festivos como o "Ramadão" ou "Festa do Carneiro", que significa para eles o início de um Novo Ano. 

Fotos do álbum do Vasco da Gama (ex-cap mil cav,  CCAV  8351, Cumbijã, 1972/74), disponibilizadas ao Pepito (1949-2012) e, através deste,  ao seu amigo Califa Aliu Djaló, filho do falecido Cherno Rachide).

Fotos (e legendas): © Vasco da Gama (2011). Todos os Direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

  
Não-estórias de guerra (6):
 O Cherno Rachide que eu conheci  

por Manuel Amaro

1. Mensagem de Manuel Amaro (ex-Fur Mil Enf, CCAÇ 2615/BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71), já publicada em 28/10/2008 (*), e que é agora recuperada como poste da sua série "Não-estórias de guerra" (**). Vem a propósito do poste P27547 (***). 

Tem-se aqui discutido, no nosso blogue, qual o posicionamento político
do Cherno Rachide (1906-1973), na altura da guerra colonial. Seria um "agente duplo" ?  O Manuel Amaro, em 2008, achava que sim.

Eu conheci pessoalmente o Cherno Rachide Djaló, chefe dos muçulmanos, em Aldeia Formosa [Califa do Quebo-Forreá, chamava-lhe o Pepito]

E confirmo que este grande marabu era amigo do General Spínola e de mais alguém em S. Bento, Lisboa, que lhe pagava as viagens para Meca.

Em dezembro de 1969, era eu professor do Posto Escolar Militar de Aldeia Formosa. Já tinha ouvido algumas histórias sobre a influência, o poder e os "poderes" do Cherno.

Um dia fui abordado por um milícia, com ar preocupado, porque o filho (ou sobrinho?) do Cherno queria falar comigo, mas como não falava português, então ele, o milícia, seria o intérprete.

Recebi o visitante, que estava nervoso, mãos a tremer, que não falava português, mas percebia perfeitamente as minhas respostas. 

A preocupação do Cherno centrava-se na possibilidade de as cerca de trinta crianças que frequentavam a escola, serem aliciadas com o ensino da religião católica.

— Nada disso... zero... zero... — resp
ondi, gesticulando. — E mais, se necessário, eu próprio vou falar com o Cherno, para garantir que não será ensinada religião católica.

Proposta aceite. Reunião marcada. No dia seguinte, lá fui à morança grande do Cherno Rachide Djaló.

Primeira surpresa, agradável, o aspecto luxuoso dos tapetes que cobriam aquele chão.Tirei as botas e sentei-me. 

Segunda surpresa, desagradável. Tinha na minha frente um homem abatido, com ar doente, olhar distante, que nem as vestas brancas, debruadas de amarelo torrado, conseguiam amenizar. O grande marabu estava mesmo preocupado.

Falei-lhe em voz baixa, pausadamente, reafirmando o que já tinha dito ao ajudante. Apenas ia ensinar os alunos a ler, escrever e contar. Fora da Escola, ao ar livre, faríamos educação física, jogos e canções. Mas nada de religião.

Enquanto o milícia traduzia, o Cherno fazia pequenos gestos de concordância. Depois, fez uma pausa e disse que,  se era assim, os meninos podiam frequentar a Escola.

Ficou tranquilo. Menos tenso, mas nunca sorriu. Despediu-se afetuosamente, como se estivesse a abençoar-me. Agradeci, por mim e pelos alunos.

Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento. 

E ao ler o poste do Luis Graça (***), fez-se luz. Era isso, um  "agente duplo".

O Cherno Rachid Djaló era um homem de confiança do PAIGC, pois embora estivesse no terreno ocupado por Portugal, tinha muita influência na população e não deixaria avançar a difusão da cultura e muito menos da religião dos portugueses. Aliás, nos ataques a Aldeia Formosa, os danos civis são quase nulos.

Manuel Amaro

(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_________________


(***) Vd. postye de 19 de dezembro de 2025  > Guiné 61/74 - P27547: Documentos (47): O Cherno Rachide terá feito, em 1969, uma aproximação ao gen Spínola, o que terá irritado o PAIGC...

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27319: Os nossos enfermeiros (20): os furriéis milicianos enfermeiros tiravam a especialidade em Lisboa, os 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e os soldados maqueiros, em Coimba (Manuel Amaro / José Teixeira / António Carvalho)


Imagem do sítio oficial da atual ESSM -Escola de Serviço de Saúde Militar (reproduzida com a devida vénia...). 

Trata-se de "um estabelecimento de ensino superior, integrado na rede do ensino superior politécnico", criado em 2 de Agosto de 1979 pelo decreto-lei nº 266/79. A ESSM está colocada na dependência directa do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA). 

É herdeira da Escola de Enfermagem da Armada e da Escola do Serviço de Saúde do Exército, entretanto extintas. 

"O ensino nesta escola abrange essencialmente três áreas distintas, dependentes de uma direcção de ensino: a enfermagem, os cursos de tecnologias de saúde e os cursos de saúde militar (...) Os cursos de saúde militar não são conferentes de grau académico e envolvem diversas áreas de formação, nomeadamente socorrismo, emergência médica e patologia de adição (alcoolismo e toxicodependência)."

No passado, nos 60/70, os camaradas furriéis enfermeiros, membros da Tabanca Grande, passaram por aqui, o antigo quartel de Campo de Ourique: o Manuel Amaro, o António Carvalho, o Adriano Moreira, o Manuel Barros Castro, o Manuel Figuinhas, o falecido José Eduardo Oliveira (Jero), etc. , são alguns nomes de grão-tabanqueiros, que me vêm à memória (**)...



1. Um dúvida do nosso editor LG: a formação (instrução de especialidade) dos nossos furriéis enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiros, e soldados maqueiros (ou de primeiros socorros) era só feita no RSS (Regimento do Serviço de Saúde, criado em 1965), em  Coimbra, ou também nos hospitais militares de Lisboa, Coimbra e Porto ?

Isto vem a propósito da nota de leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, que foi 1º cabo aux enf, 2ª / BART 6521/72 (Có, 1972/74) e  que fez a especialidade no RSS de Coimba, de janeiro a maio de 1972, e que depois "estagiou" no serviço de cirurgia plástica do HMP, à Estrela, em Lisboa. Já foram produzidos alguns comentários que muito agradecemos (*):


(i) Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 28922, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71]


Sobre os Cursos dos Enfermeiros militares, eu tive o "azar" de fazer os dois cursos. O de auxiliar no RSS (Regimento do Serviço de Saúde), em Coimbra, no verão de 1967 (onde fui camarada do Zé Teixeira).

 Fiz depois o estágio no Hospital da Estrela, em Lisboa (Serviço de Neurocirurgia).

Andei, entretanto, um ano a "marcar passo" entre Tavira e Évora, em conflito com o exército. Como eu tinha razão, em julho de 1968 iniciei o Curso de Sargento Enfermeiro, em Lisboa, no Hospital da Estrela.

Sobre a matéria dos cursos não tenho documentos mas foi suficiente para o que nos era exigido na Guiné.

Mais, cada Batalhão de Infantaria tinha, ou deveria ter, quatro sargentos enfermeiros (um por companhia), nove cabos auxiliares de enfermeiro (três por companhia operacional), e, creio que quatro maqueiros (na CCS).

(ii) José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70)


O RSS. em Coimbra não era assim tão mau, no que respeita à alimentação no tempo em que por lá andei em 1967. 

No que respeita a instrução para enfermeiro, lamentavelmente era assim, ou pior.

Um pelotão com mais de quarenta homens em que 50% vinham do CSM por chumbo forçado dado o excesso do ano anterior em que por necessidade chamaram para o CSM mancebos com o 2º ano. Descontentes e ressabiados, encontraram pela frente um médico que praticamente nunca apareceu no pelotão, um cabo RD enfermeiro, que era bom rapaz e mais nada, dava anatomia do corpo humano a gente que sabia mais que ele. 

Havia gente com o liceu completo, com o curso comercial, com o curso industrial e até professores primários. Um outro cabo RD para a instrução militar, que era amigo e nos deixava sempre à vontade. Os raides eram fantásticos, pois quando nos mandava voltar à esquerda, voltávamos à direita para irmos ver as garotas do liceu; quando nos mandava correr, os da frente corriam mesmo e os detrás faziam que corriam e.  quando ele resmungava, os detrás começavam a correr e os da frente paravam. 

Como as coisas não corriam bem colocaram lá um sargento já velho que tinha vindo de África, mas nada melhorou. Entretanto o cabo RD enfermeiro foi promovido e desapareceu. O sargento vindo da tropa macaca sabia ainda menos: " uma síndrome era um conjunto de sintomas e um sintoma era um conjunto de síndromes", assim se explicava o homem.

O meu Estágio foi no HMP - Porto numa enfermaria de medicina interna, onde havia um 1º sargento que cumpria rigorosamente o seu horário e não incomodava ninguém. Os doentes até nem eram graves. O restante pessoal eram cabos enfermeiros do contingente geral e havia dois cabos milicianos, que aguardavam a convocação para África, que não se incomodaram comigo. Dávamo-nos todos muito bem. 

Sei que aprendi a dar injeções e praticamente mais nada. Acompanhava os médicos na visita aos doentes de medicina, e apenas assisti a uma operação em ortopedia, feita no posto de serviço da enfermaria 8 (ortopedia). Não havia formação específica para estagiários. Andei por lá, cerca de dois meses e fui dado como pronto.

De notar que os cabos enfermeiros com destino aos serviços hospitalares fizeram o mesmo curso que eu, bem como os maqueiros. Os destinados a ser enfermeiros hospitalares, creio que tinham mais um mês de estágio e os maqueiros não os vi em estágio.

A verdadeira aprendizagem foi no terreno.

(iii) António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá"), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74)
 

No que concerne aos cabos milicianos saídos da recruta, eles tiravam a especialidade unicamente em instalações anexas à Basílica da Estrela em Lisboa, posteriormente estagiavam durante seis meses num dos hospitais das diferentes regiões militares. Isto acontecia nos anos setenta.


2. Comentário do editor LG:

Pegando na História da Unidade do BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74), constata-se que tinha capelão, mas não tinha médico quando chegou ao CTIG em 28/9/72 (o comando e a CCS) (com regresso a 27/9/1974).
  • a CCS evava um furriel enfermeiro,  dois 1ºs cabos aux enf, e dois sold maqueiros;
  • a 1ª C/BCAÇ 4612/71 levava um fur mil enf, dois 1ºs cabos aux enf;
  • a 2ª Companhia  não tinha, originalmente, nem fur enf nem 1ºs cabos aux enf.
  • a 3ª tinha um fur enf, e um 1º cabo aux enf.

Este batalhão vinha, pois,  desfalcado de pessoal sanitário. Pelos complementos e recomplementos, qwue constam da história da unidade, vê-se que o pessoal de saúde teria maior taxa de turnover ou rotação... ou então havia já, na metróp0ole, escassez deste pessoal... 

Um batalhão, a que eu estive adido (de julho de 1969 a maio ou junho de 1970), o BCaç 2852 (Bambadinca, 1968/70), parecia ter o quadro orgânico completo: 

  •  a  CCS tinha 3 médicos (mas eu só conheci um; também não tinha capelão);
  •  dispunha de um fur enf + um 1º cabo aux enf +  2 sold maqueiros (e ainda  um 1º cabo de análise e depósito de águas);
  • das companhias de quadrícula, a CCAÇ 2404, CCAÇ 2405 e CCAÇ 2406, verifico, pela história da unidade, que todas estavam dotadas de um fur enf + três 1ºs cabos aux enf.;
  • os soldados maqueiros só existiam nas CCS.

Quanto ao Regimento do Serviço de Saúde (RSS), sabemos que foi criado em 1965,  com base no antigo Regimento de Infantaria nº 12 (RI 12), e que absorveu as missões dos então extintos 1º e 2º grupos de companhias de saúde. Estava-se em plena guerra do ultramar, e era preciso responder às crescentes necessidades de pessoal sanitário.

Durante o resto da guerra colonial o RSS aprontou e enviou para Angola, Guiné Portuguesa e Moçambique diversas unidades sanitárias, a maioria delas sendo destacamentos de inspeção de alimentos, de inspeção de águas e cirúrgicos. Também formou auxiliares de enfermagem e maqueiros.

O RSS foi extinto em 1975, deixando de existir qualquer unidade mobilizadora do Serviço de Saúde no Exército Português.

(Revisão / fixação de texto: LG)

____________________

(**) Último poste da série > 28 de março de 2024 > Guiné 61/74 - P25314: Os Nossos Enfermeiros (19) : Negócios Imobiliários em Mampatá (António de Carvalho, ex-Fur Mil Enf.º)

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26693: HIstória de vida (58): Henrique Pereira Rosa (Bafatá, 1946- Porto, 2013): o fur mil OE, CCAÇ 2614 (Nhala e Aldeia Formosa / Quebo, 1969/71), católico praticante, luso-guineense, que chegou a presidente da república, interino (2003-2005), da Guiné-Bissau



Hebrique Rosa (c. 2009). Fonte: Francisco Barroqueiro

Henrique Pereira Rosa (1946 - 2013). Fonte: Wikimedia Commons



Fonte: Archive Internet 

1. Henrique Pereira Rosa: nasceu em Bafatá, em 18 de janeiro de 1946, e morreu no  Porto, a 15 de maio de 2013. Foi um comhecido (e bem sucedido) empresário no seu tempo. Mas também político, tendo exercido as funções de Presidente da República, interino,  da Guiné-Bissau de 2003 a 2005.  Tinha a dupla nacionalidade, guineense e portuguesa.

Poucos sabem,  na Guiné-Bissau, no entanto, que "no tempo da outra senhora" foi furriel miliciano de operações especiais (EA),  do exército portuguès, na CCAÇ 2614 / BCAÇ 2892 (Nhala e Aldeia Formosa / Quebo, 1969/71) (*)

Infelizmente só temos meia-dúzia de referências a esta subnunidade. a CCAÇ 2614,. "Os Resistentes de Nhala" 

2.  Com base nas informações dos nossos camaradas Francisco Barroqueiro  e Manuel Amaro (MA) (este, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615/BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969 a 1971),  sabemos mais o seguinte sobre o Henrique Rosa e a sua vida (**):

(i) o  Henrique Rosa, falecido no dia 15 de maio de 2013, no Hospital de S. João, no Porto, era um cidadão guineense, de origem portuguesa;

(ii) foi furriel miliciano de infantaria, com a especialidade de Operações Especiais,  da CCAÇ 2614 / BCAÇ 2892 (Nhala e Aldeia Formosa / Quebo, 1969/71);

(iii) "conheci-o em Évora, antes do embarque [do batalhão]; e aí começamos a construir uma relação de amizade, que se manteve ao longo de toda a comissão de serviço" (MA);

(iv) "era um jovem desportista, com uma cultura política e social muito acima da média, no nosso escalão etário; gerador de consensos, coisa tão necessária, naquele tempo, tal como hoje" (MA).

Uma vez terminado o serviço militar, 


Kumba Yalá (1953-2014)
o Henrique Rosa regressou à sua vida familiar e
empresarial, na Guiné. Residia em Bissau. Em 2003,  os autores do golpe de Estado, de 14 de setembro,  liderado pelo Veríssimo Correia Seabra, que derrubou Kumba Ialá, convidaram-no (e ele aceitou) a desempenhar o cargo de Presidente da República,  a título interino, e como independente, no período de transição até às eleições de 2005 (de 24 de setembro de 2003 a 1 de outrubro de 2005).

Desempenhou esta missão, com nobreza e sentido cívico, para mais sendo um católico praticante. Ajudou o país nessa  fase difícil de transição. Tinha a vantagem de ser independente, não pertencer ao PAIGC nem a nenhum outro partido.

 Sucedeu-lhe o 'Nino' Vieira (2005-2009) (independente). Contra a sua vontade, e por insistência de amigos,  candidatou-se, ainda por duas vezes (2009 e 2012), ao cargo de presidente da república, mas não foi eleito.

Um problema grave de saúde (cancro no pulmão), que tratava em Portugal, no Hospital de São João, levou-lhe a vida, no dia 15 de maio de 2013. O corpo foi trasladado para a Guiné-Bissau.


3. Da Internet Archive, recuperámos mais a seguinte informação sobre o Henrique Rosa 




(cinco capturas de página entre 25 dez 2009 e 5 jan 2025)


O Comité militar que liderou o golpe de Estado de 14 de setembro de 2003, criou um comité "ad-hoc" entre personalidades civis e militares que indicasse um nome para ocupar o cargo de Presidente da República de Transição até à realização de eleições Presidenciais, sugeridas, em princípio, para Março de 2005.

Coube ao Bispo de Bissau, D. José Câmnate Na Bissign, liderar este comité que, escolheu e propôs o nome de Henrique Pereira Rosa para o cargo solicitado.

A escolha de Henrique Pereira Rosa foi consensual no seio do Comité Militar bem como na sociedade civil guineense, tendo tomado posse como Presidente da República de Transição a 28 de setembro de 2003.

Biografia apresentada no acto do anúncio público da candidatura:

Henrique Pereira Rosa nasceu a 18 de janeiro de 1946, em Bafatá, leste da Guiné-Bissau, é casado com a senhora eng.ª agrónoma Maria Rosa Robalo e pai de 5 (cinco) filhos. Concluiu o 3º ciclo do ensino liceal (antigo 7º ano dos liceus) em Bissau, com elevadas classificações.

Domina a Língua Portuguesa, exprime-se fluentemente em Francês e razoavelmente em Inglês.

Começou a trabalhar muito cedo e foi na vida activa que foi consolidando a sua formação profissional. Foi funcionário público - serviços de fazenda, de 1965 a 1971.

É empresário do sector de seguros marítimos (agente das seguradoras: Lloyd’s of London,  da Grã-Bretanha, e Cesam,  da França), comércio internacional e agropecuária.

Para além de frequentar diversas formações e estágios em matéria de gestão e de comércio internacional, tem uma larga e diversificada experiência política, empresarial, desportiva e social.

  • Foi Presidente da República de Transição de 28 de setembro de 2003 a 1 de outubro de 2005;
  • É Presidente do Conselho da Aliança para a Refundação da Governação em África – 2006;
  • É Presidente da Assembleia-Geral da Associação Empresarial da Zona Industrial de Brá - AEZIBRA;
  • É Presidente da Assembleia-Geral da Companhia Guineense de Seguros (Guinebis), desde 2000;
  • É Presidente da Assembleia-Geral do Sport Bissau e Benfica;
  • É Membro Fundador do Fórum dos Antigos Chefes de Estado e Governos Africanos (Fórum África);
  • É Membro Fundador da Rotary Club de Bissau, sendo Paul Harris Fellow e Past President;
  • É Membro Honorário da Liga dos Direitos Humanos da Guiné-Bissau;
  • É Membro do Conselho de Administração da Caritas Guiné-Bissau;
  • Foi Presidente do Conselho de Administração da FUNDEI (Fundação Sueca e Guineense para o Desenvolvimento Industrial) de 1995 a 2003;
  • É Cônsul Honorário da República da Costa do Marfim;
  • Foi Presidente da Direcção do Sport Bissau e Benfica de 1986 a 1997;
  • Foi Vice-Presidente da Associação Industrial da Guiné-Bissau (AIGB);
  • Foi Cônsul Honorário da Bélgica de 1980 a 1992;
  • Foi Director Executivo da Comissão Nacional de Eleições, nas primeiras eleições presidenciais e legislativas realizadas no país em 1994;
  • Foi Coordenador, a partir de outubro de 1998, do CAPAZ (Comité Ad-hoc da Sociedade Civil para a Paz), o primeiro Movimento da Sociedade Civil guineense encarregado de restabelecer a paz na Guiné-Bissau em consequência da crise político-militar que atingiu o país de 1997 a 1998;
  • Foi um dos Governadores da Fundação Rural da África Ocidental (FRAO), com sede em Dacar, Senegal;
  • Foi Membro do Conselho Inter-Diocesano de Projectos;
  • Foi Membro do Conselho dos Assuntos Económicos da Diocese de Bissau;
  • Foi distinguido pela República da Costa do Marfim com as Insígnias de Comendador da Ordem Nacional da Costa do Marfim;
  • Foi distinguido pela República da França com as Insígnias da Legião de Honra

Fonte: Henrique Rosa para Presidente (eleições de 28 de junho de 2009)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

 _____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 16 de maio de 2013 > Guiné 63/74 - P11578: In Memoriam (150): Henrique Rosa (1946-2013), ex-fur mil inf, Op Esp., CCAÇ 2614 / BCAÇ 2892 (Nhala e Quebo, 1969/71), e ex-presidente da República da Guiné-Bissau, interino (2003/05) (Francisco Barroqueiro / Manuel Amaro)

(**) Último poste da série > 15 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26691: História de vida (57): o fur mil vagomestre António Fonseca que acabou por ter uma morte trágica no Algarve, em Albufeira, com a toda a família em 2009 (Luís Dias, ex-alf mil op esp, CCAÇ 3491, Dulombi e Galomaro, 1971/74)

sábado, 8 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17558: Inquérito 'on line' (119): num total (provisório) de 35 respostas, até às 21h00 de hoje, menos de metade (17) entende que "em geral, o aerograma era seguro e rápido"... Comentários de: José Martins, Manuel Amaro e Carlos Vinhal

I. INQUÉRITO 
DE OPINIÃO: 

"EM GERAL, O AEROGRAMA 
ERA SEGURO 
E RÁPIDO" (*)


[Seguro=em geral,  não se extraviava, não se perdia, era devolvido em caso de erro no endereço, não era facilmente violável, não havia censura, a pessoa sentia-se à vontade para escrever o que lhe apetecesse ...]

[Rápido = em geral, demorava poucos dias a chegar ao destinatário]

Assinalar, diretamente, no canto superior esquerdo do blogue, uma das cinco hipóteses de resposta, de acordo com a perceção e e experiência de cada um, no TO da Guiné,

Em 35 respostas preliminares, temos os seguintes resultados;


1. Era seguro e rápido 17 (48,6%) 

2. Era seguro mas não rápido 3 (8,6%) 

3. Era rápido mas não seguro 9 (25,7%)

4. Não era nem seguro nem rápido 3 (8,6%) 

.5 Não sei / já não me lembro 3 (8,6%)

Total > 35 (100,0%)

O prazo de resposta termina na 5ª feira, dia 13, às 16h59.


2. Comentários dos nossos leitores

(i) José Marcelino Martins: 

Escolhi, no leque de respostas a hipótese dois: Era seguro, mas não rápido.

Pelo que sei, os "responsáveis pelos SPM", a nível de terreno, eram requisitados aos CTT e graduados em 1º Sargento. Alguns eram, na realidade, carteiros de profissão.

A velocidade com que faziam o trajeto variava, em função:
- Da quantidade de voos semanais, da TAP, que era quem os transportava;
- Da EPM [Estação Postal Militar] em Bissau, seguiam para os Batalhões;
- Dos Batalhões seguiam para as unidades, nível de companhia, que a distribuía ou enviava para os destacamentos que tinha, e de acordo com o ritmo de "transporte".

Portanto tudo variava. Até o esquecimento daquilo que era o que animava a malta

(ii) Manuel Amaro
Um aerograma entregue nos CTT do Aeroporto de Lisboa, até às 19.00 horas, era distribuído em Aldeia Formosa (Quebo), por volta das 16.00 horas do dia seguinte.

(iii) Carlos Vinhal;

Não é líquido um aerograma ser mais rápido que uma carta ou vice-versa porque a distribuição do correio no mato dependia das condições logísticas.
 
José Martins, o que expões,  não acontecia nas cartas?  Iriam as cartas de barco e chegavam mais depressa a Bissau? Os aerogramas não percorriam o mesmo calvário que as cartas? Ou tinham tratamento diferente chegados a Bissau?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17062: "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp) - Parte III: Mobilização do batalhão e composição das companhias (3)


[18]


[11]



1. Contimuação da publicação da brochura"Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp. inumeradas, il.) [, imagemd a capa, à esquerda].(*)

O autor é  José Rebelo, capitão SGE que foi em 1941/43 um dos jovens expedicionários do RI I1, então com o posto de furriel. Não sabemos se ainda hoje é vivo, mas oxalá que sim, tendo então a bonita idade de 96 ou 97 anos. Em qualquer dos casos, este nosso velho camarada é credor de toda a nossa simpatia, apreço e gratidão.

O nosso camarada Manuel Amaro diz-nos que o conheceu pessoalmente (*)

"O Capitão José Rebelo, depois desta aventura em Cabo Verde, como furriel, cumpriu serviço em Timor, como sargento, durante muitos anos. No regresso à Metrópole, por volta de 1960, fez a Escola de Sargentos, em Águeda e após promoção a alferes, comandou a Guarda Nacional Republicana em Tavira, até 1968. Como homem de cultura, colaborava semanalmente, no jornal "Povo Algarvio", onde o conheci, pessoalmente. Em 1969, já capitão, era o Comandante da Companhia da Formação no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa.

"Não sei mais nada [,. atualmente,] do Capitão Rebelo. Antes desta informação, na Tabanca, tinha sabido por mero acaso, que ele e o Coronel Pontes Miquelina, (que também tinha sido meu Comandante de Companhia), eram colaboradores das Entidades Oficiais (Município, Governo Civil e outras), em Setúbal. Talvez a Liga dos Combatentes tenha mais informação."


O então furriel José Rebelo,
expedicionário do 1º batalhão
 do RI 11

A brochura que estamos a reproduzir é uma cópia, digitalizada, em formato pdf, de um exemplar que fazia parte do espólio do Feliciano Delfim Santos (1922-1989), que foi 1º cabo da 1ª companhia do 1º batalhão expedicionário do RI 11, pai do nosso camarada e grã-tabanqueiro Augusto Silva dos Santos (que reside em Almada e foi fur mil da CCAÇ 3306/BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73) (*)

Trata-se de um conjunto de crónicas publicadas originalmente no jornal "O Distrito de Setúbal", e depois editadas em livro, por iniciativa da Assembleia Distrital de Setúbal, em 1983, ao tempo do governador civil Victor Manuel Quintão Caldeira. A brochura, ilustrada com diversas fotos, tem 76 páginas, inumeradas.

Além do pai do Augusto Silva Santos, o 1º cabo Feliciano Delfim Santos (1922-1989), temos conhecimento de mais dois expedicionário do RI 11, familiares de um camarada nosso e de uma leitora nossa: (i)  o tio do Benjamim Durães, membro da Tabanca Grande: o soldado atirador António Joaquim Durães (**); e (ii) o avô, ex-1º cabo Armindo da Cruz Ferreira,  da nossa leitora Albertina da Conceição Gomes, médica patologista, de nacionaliddae cabo-verdiaana, a viver e  a trabalhar na Noruega (***)-

O RI 11 desembarcou na Praia, ilhya de Santigao,  em 26/6/1941, e esteve em missão de soberania na ilha do Sal cerca de 20 meses (até 15 de março de 1943), cumprindo o resto da comissão de serviço (até dezembro de 1943) na ilha de Santo Antão.

Seria interessante podermos identificar mais velhos camaradas do RI 11 que foram expedicionários em Cabo Verde... A maior parte do pessoal do 1º batalhão do RI 11 era originário do distrito de Setúbal.. Infelizmente, muito poucos estarão vivos.



"Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp. inumeradas, il.)

Parte III (pp. 11-18)



[11]


[12]


[13]


[14]



[15]


[16]



[17]

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 13 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17047: "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp) - Parte II: Mobilização do batalhão e composição das companhias (2)

(**) Vd. popste de  10 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17039: Meu pai, meu velho, meu camarada (51): Feliciano Delfim dos Santos (1922-1989), ex-1.º cabo, 1.ª Comp /1.º Bat Exp do RI 11, Cabo Verde (Ilhas de Santiago, Santo Antão e Sal, 1941/43) (Augusto Silva Santos) - Parte IV: Ilha do Sal, Feijoal

(***) Vd. poste de 27 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16996: Meu pai, meu velho, meu camarada (49): O que conseguimos saber, até agora, do ex-1º cabo Armindo da Cruz Ferreira, companhia de acompanhamento do 1º Batalhão Expedicionário do RI 11, Cabo Verde, Ilha do Sal (junho de 1941-dezembro de 1943) a pedido da sua neta, Albertina da Conceição Gomes, médica patologista na Noruega

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15383: Inquérito 'on line' (19): Batota em relação às causas das baixas das NT? Provavelmente não havia... Havia, isso sim, dualidade de critérios e os trâmites normais da burocracia da justiça militar (Abílio Magro / Manuel Amaro / Carlos Vinhal / Luís Graça / José Martins / Jorge Cabral)


Comentários ao poste P15378 (*):
1. Abílio Magro ex-fur mil amanuense,  CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

Os processos eram instruídos nas Companhias e, de acordo com o respectivo "instrutor", a caracterização era efectuada na CSJD/QG/CTIG. [CSJD = Chefia do Serviço de Justiça e Disciplina],

Supõe-se que muitos dos "instrutores" nada sabiam das consequências futuras para os militares ou seus familiares, pelo modo pouco rigoroso como era instruído o processo. Por outro lado, outros "instrutores", bem mais preparados e conhecedores destes "meandros", lá conseguiam "dourar a pílula",  escondendo habilmente alguns factos e, assim, conseguir algum benefício para o militar atingido ou acometido de doença.

Na CSJD/QG/CTIG, face aos factos constantes do processo (reais ou não) era emitido o respectivo parecer.
´
Tenho a ideia, não a certeza, que o relato das testemunhas era manuscrito pelo instrutor (um alferes miliciano, por norma) e as testemunhas não assinavam, ficando o instrutor responsável por elas. Neste contexto, o processo podia muito bem ser conduzido para o lado mais conveniente, houvesse vontade e engenho para isso. 

Para ficarem com uma ideia de como a "coisa" funcionava, quero referir o assédio de que fui alvo, em setembro de 1974, por parte de alguns capitães milicianos, comandantes das companhias que tinham regressado a Bissau e que aguardavam embarque para a Metrópole.

E o assédio tinha em vista a minha colaboração diária (nocturna e paga) a fim de os ajudar na conclusão dos vários processos pendentes na Unidade, sem o que esta não poderia embarcar, denotando os capitães milicianos, portanto, algum desconhecimento da matéria em causa.

Noutras circunstâncias tê-los-ia ajudado,  com muito gosto e "sem honorários", mas acontecia que eu também estava ansioso para "bazar dali" e, naquela altura, chegava ao fim do dia cansado de tanto queimar papelada e, com o calor das chamas e a fumaça, tinha sempre a garganta seca.


2. Luís Graça [editor, ex fur mil, arm pes inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71]


Não deixa de ser significativo que mais de um terço (22 em 59, ou seja, 37%) dos respondentes ao inquérito 'on line' desta semana, tenham optado pela resposta "Não sei / não tenho opinião"...

A questão é técnica e juridicamente complexa... Poucos de nós, ao fim e ao cabo, lidaram com este problema... Temos, muitos de nós, a experiência das "baixas", dos camaradas que morreram ou foram feridos... Não sabemos, em muitos casos, como é que o processo burocrático se desenrolou, seguindo os trâmites normais da justiça militar...

A alguns de nós causa estranheza ou provoca até revolta ao vermos, nas listas oficiais dos mortos na guerra do ultramar, camaradas nossos, que conhecemos, como o Quaresma, da CART 2716 (Xitole, 1970/72), terem morrido por "acidente"... 

O Quaresma morreu por estar numa zona de guerra e todos os dias armadilhar e desarmadilhar o engenho explosivo colocado numa das entradas do quartel, para a malta poder dormir "mais descansada"... E quantos casos não houve como o do Quaresma ?! Ora é preciso que estes casos venham à luz do dia!...

3. Manuel Amaro [ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71]

Se houve "batota",  não tive conhecimento.

Os três mortos da minha Companhia, a CCAÇ 2615, foram todos mortos em combate e todos eles considerados como tal.

O problema creio que estaria na separação entre combate e... acidente.

Não espero, nem faria sentido, aparecerem hoje os coronéis reformados a dizer que, quando eram capitães (ou alferes),  tinham mentido, tinham feito "batota".

No meu Batalhão houve dois casos complicados. O alferes Queiroz (CCAÇ 2616, Buba),  morto a levantar uma mina, junto ao quartel, creio que foi considerado em combate. Já o furriel Ferreira, da mesma companhia, morto a levantar uma mina, na estrada Buba-Nhala, terá sido considerado acidente.

Mas creio que os investigadores dos factos e as testemunhas dos mesmos, agiam sempre de acordo com a legislação.


4. Carlos Vinhal [, editor, ex-fur mil art MA, CART 2732, Mansabá, abril de 1970/março de 1972] 

No caso das minas, normalmente a diferença entre morto por acidente ou em combate dependia de a mina ser "amiga" ou do IN.

Na minha Companhia, o Alferes de Minas e Armadilhas morreu ao tentar neutralizar uma mina AP inimiga, sendo considerado morto em combate. Naturalmente, diria eu.

Um camarada, por ironia do destino impedido na Messe dos Oficiais, quando se dirigia para um abrigo para entrar de reforço, caiu abaixo do Unimog,  sendo considerado morto por acidente.

Acho que não haveria muita batota, existiriam por vezes situações dúbias que cada um classificava como queria. Os afogados, por exemplo, mesmo a fugir do IN, eram mortos em combate ou por acidente?


5. Luís Graça / José Marcelino Martins:

Veja-se mais este caso, infeliz, já aqui abordado no blogue:

7 de agosto de  2007 >  Guiné 63/74 - P2035: Alf Mil Guido Brazão, da CCAV 2748/BCAV 2922, morto em acidente com arma de fogo, Canquelifá, 22/10/70 (José M. Martins)


(...) 8º VOLUME – Mortos em Campanha
Tomo II
Guiné – Livro 1
1ª Edição (2001) Página 553 (2º registo)

Nome - Guido Ponte Brazão da Silva
Posto - Alferes Miliciano de Cavalaria – Operações Especiais
Numero - 19769668
Unidade - Companhia de Cavalaria n.º 2748
Unidade Mobilizadora - Regimento de Cavalaria n.º 3 – Estremoz
Estado Civil - Solteiro
 (...) Freguesia - São Vicente
Concelho São Vicente – Madeira
Local de Operações - Camamelifén [, deve ser gralha: Canquelifá]
Data do Falecimento - 22 de Outubro de 1970, em Canquelifá
Causas da morte - Acidente, com arma de fogo
Local da sepultura - Cemitério da Ajuda – Lisboa

Observações: Acionamento de granada – armadilha IN


6. Jorge Cabral [, ex-alf mil art, cmdt  Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá. 1969/71[

E os suicídios, Luís? 
Tive um no meu Pelotão, mas desconheço como foi classificado...

Abraço.
J.Cabral
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Nota do editor: